O acúmulo de gordura nas coxas, nádegas, tornozelos ou joelhos pode ser um sinal de Lipedema.

O corpo de Carla era harmônico. Ela não era uma mulher considerada magra, mas estava longe de ser taxada de obesa. Estava 90% satisfeita. Até que veio a gravidez e tudo mudou. Em meio aos choros do bebê e das trocas das fraldas Carla demorou para perceber que o formato de seu corpo havia se transformado ao longo dos NOVE meses de gestação. Afinal, é aceitável um ganho de peso. Dois anos depois, conseguiu emagrecer. Porém, um acúmulo de gordura nas coxas, especialmente ao lado dos joelhos, passou a acompanhar Carla. Durante 14 anos, tentou várias dietas e exercícios, mas parece que não adiantava, e uma impressão de aumento nestes locais. Bem, pelo menos este é o momento em que Carla chegou ao meu consultório, não bastando este incomodo estético, com queixas importantes de dor nas pernas, edema e hematomas(roxos) em locais onde ela afirmava com absoluta certeza de que não havia sofrido trauma e acúmulo de gordura onde pensava ser problema de circulação.   

 

Carla é uma personagem fictícia com uma história extremamente real para muitas mulheres que chegam semanalmente ao meu consultório. O caso descrito de Carla é um clássico de uma doença chamada Lipedema, que é desconhecido para a grande maioria da população.

Sintomas de Lipedema 
■  Acúmulo de gordura localizada ppte no quadril, coxas, pernas e joelhos
■ Dor nas áreas afetadas
■ Sensibilidade ou pernas doloridas 
■ Hematomas frequentes  
■  Sensação de fraqueza nas pernas  
■  Inchaço  
■  Regiões afetadas mais frias 
■  Dificuldade de emagrecer nestas áreas 
  
   
    

Lipedema é uma condição crônica envolvendo um acúmulo de tecido adiposo principalmente nos membros inferiores presente em 11% das mulheres. Normalmente afeta as coxas, nádegas, pernas e às vezes os braços. Existe uma relação hormonal importante, aparecendo na puberdade, após gestação ou uso de pílulas anticoncepcionais. Entre as queixas está o inchaço (edema), dor, sensibilidade (pernas doloridas), hematomas, extremidades frias além da estética que transforma os números inferiores maiores que da parte superior. Facilmente confundida com obesidade ou linfedema. Por ser cíclico e evolutivo, podendo até prejudicar a mobilidade, a capacidade de realizar atividades de vida diária e o bem-estar psicossocial em estágios mais avançados. O incentivo ao autocuidado, com uma dieta funcional, atividades físicas, manutenção do peso garante uma evolução com boa qualidade de vida. Outras medidas como uso de meias medicinais, drenagem linfática manual, compressão pneumática, lipoaspiração ou medicamentos podem ser associadas.

Prevalência

Lipedema foi descrito pela primeira vez em 1940 por Allen & Hines, afeta quase exclusivamente as mulheres. Estima-se que 11% das mulheres são acometidas em algum grau. É provável que seja mais comum, pois os casos podem ser ‘escondidos’ por causa de sua natureza leve ou não ser reconhecidos ou mal diagnosticados pelos serviços de saúde. Os diagnósticos errados comuns incluem obesidade ou linfedema.

 

Causa

 É provável que vários fatores estejam envolvidos, mas a natureza hormonal apresenta-se como o fator mais importante. Lipedema frequentemente se apresenta pela primeira vez durante a puberdade, embora o uso de contraceptivos orais, a gravidez e a menopausa também pareçam ser gatilhos. O aparecimento da doença após períodos de ganho de peso significativo também foi relatado. Há também evidência de uma predisposição genética para Lipedema. Um histórico familiar da doença foi encontrado em 15%-64% dos pacientes

Sinônimos de Lipedema

 
■  Lipomatose dolorosa das pernas            
■ Síndrome da gordura dolorosa
■ Pernas de coluna dolorosas 
■ Adiposalgia   
■  Lipalgia  
■  Lipoedema  
■  Lipohiperplasia dolorosa 
■  Lipohipertrofia dolorosa 
■ Síndrome de equitação 
■ Pernas de fogão.  
    

Aumento do  Volume do Tecido adiposo

Ocorre um efeito duplo nas células de gordura:

1- hipertrofia –  aumento no tamanho da célula

2- hiperplasia – aumento no número de células de gordura

                Além disso, ocorre uma inflamação durante estes processos de aumento excessivo do tecido. Com isso,  induz o crescimento de novos capilares frágeis neste tecido adiposo, que justificaria o aparecimento de hematomas espontâneos. Outras alterações teciduais que podem ocorrer incluem a redução da elasticidade da pele e do tecido conjuntivo.

A causa da dor e da hipersensibilidade frequentemente mencionadas por pacientes com Lipedema não é clara, mas pode estar relacionada à compressão das fibras nervosas pelo aumento do tecido adiposo, inflamação e sensibilização central (processo que envolve alterações no cérebro e na medula espinhal que estão associadas ao desenvolvimento da dor crônica).

3- Edema

Ocorre uma sobrecarga do sistema linfático. Pesquisas recentes mostram alteraçoes do sistema linfático nas fases iniciais. Porém, existem outros fatores que desncadeiam o edema.

1- Aumento da formação de fluidos intersticiciais devido à fragilidade capilar e possível obstrução mecânica de pequenos vasos linfáticos por alargamento do tecido adiposo,

2- Mobilidade reduzida devido à dor ou problemas articulares ( que são comuns ), podem atuar diminuem a eficácia do retorno venoso.

3- Insuficiência venosa crônica associada ou outra condição que acumule liquidos como insuficiencia cardíaca, nefropatia.

4- Linfoesclerose  – Alterações relacionadas à idade que fazem com que os vasos linfáticos endureçam  e se tornem menos eficazes na remoção do fluido.

5- Ciclo Menstrual – Algumas mulheres com Lipedema relatam aumento considerável de regiões acometidas durante  a fase menstrual.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico de Lipedema é basicamente clínico e que se baseiam no histórico e exame do paciente. Atualmente, não existem biomarcadores de sangue ou urina conhecidos, nem há testes diagnósticos específicos, para Lipedema. Na ausência de exames diagnósticos definitivos, os médicos precisam ter uma compreensão clara das características únicas do Lipedema e como diferem de outras condições aparentemente semelhantes, como linfedema e obesidade.

O curso do Lipedema ao longo do tempo é variável e imprevisível. A condição pode progredir de forma cíclica  ou permanecer estável por muitos anos.

 

História e sintomas

Normalmente, um paciente com Lipedema é do sexo feminino e relata o início na puberdade ou em outro momento de alteração hormonal. O desenvolvimento do ac;umulo de gordura é lenta. Geralmente é bilateral e simétrico, e mais comumente afeta as pernas, coxas, quadris e nádegas, com preservando os pés.

Diagnóstico de Lipedema pode ser difícil em os estágios iniciais ou em formas leves, pois os sintomas e sinais podem ser sutis. As características do Lipedema tornam-se mais óbvias à medida que a doença progride e em formas mais graves. Os braços podem ser acometidos em até 30% e como nos membros inferiores, poupando as mãos.

Em pacientes com Lipedema de membros inferiores, a parte inferior do corpo muitas vezes será desproporcional em relação ao corpo:  podem precisar de roupas para sua parte inferior do corpo que são vários tamanhos maiores que as do corpo superior.

Hematomas sem causa aparente ou apenas devido a traumas menores são comuns. Frequentemente mencionam dor e sensibilidade extrema ao toque e pressão nas áreas afetadas. Elas também relatam que as áreas afetadas são mais frias do que as áreas não afetadas. A fraqueza muscular pode estar presente. Elas frequentemente mencionam repetidas tentativas de perder peso através de dietas restritas a calorias e exercícios que têm pouco ou nenhum impacto nas áreas afetadas e resultam em perda de peso apenas de áreas não afetadas.

 

Diagnóstico diferencial

Parte da razão pela qual o Lipedema pode ser subdiagnosticado é que ele pode ser confundido com outras condições que causam aumento subcutâneo de tecido, inchaço ou deposição de gordura. Os dois diagnósticos errados mais frequentes são obesidade generalizada e linfedema

Causas de edema bilateral simétrico
■  Insuficiência venosa crônica         
■  Insuficiência cardíaca congestiva
■  Dependência ou edema estase
■  Disfunção  hepática ou renal
■  Hipotireoidismo  
■  Gravidez   
■  edema pré-menstrual   
■  Inchaço induzido por drogas, por exemplo,
 bloqueadores de canais de cálcio, esteroides, 
 anti-inflamatórios não esteroides.
    

Bioimpedância

Mede as propriedades elétricas da pele e tecidos subcutâneos superficiais. A leitura obtida é uma medida da quantidade de água nos tecidos e conseguem proporcionar porcentagens de gordura em cada região do corpo. Pacientes com Lipedema apresentam desproporção nas regiões.

 

Comorbidades

As comorbidades devem ser identificadas para minimizar o impacto em pacientes com Lipedema. Existe uma associação com: fibromialgia, alergia ao glúten (doença celíaca), hipotireoidismo, síndrome do ovário policístico, deficiência de vitamina D e artrite.

Princípios do Tratamento do Lipedema

 

■ Alimentação saudável e controle de peso

■ Atividade física e melhoria da mobilidade  

■  Cuidados e proteção da pele 

■ Terapia de compressão 

■ Manejo da dor.

■ lipoaspiração vibratória

 

Alimentação

Muitos pacientes com Lipedema têm tentado repetidamente e muitas vezes sem sucesso ao longo de muitos anos reduzir o tamanho das áreas afetadas através de dieta hipocalóricas. Esses esforços podem ter produzido perda de peso de áreas não lipedematosas, mas sem resultado nas áreas afetadas.

O princípio da dieta segue uma alimentação saudável, com preferência para uma dieta anti-inflamatória principalmente nos períodos cíclicos da dor. Outras dietas podem ser associadas como benefício como Jejum intermitente, cetogênica e mediterrânea.

O controle de peso torna-se importante reduzindo o risco de condições relacionadas à obesidade, como diabetes e degeneração articular.

 

Terapia De Compressão

No Lipedema, o uso da terapia de compressão tem três objetivos principais:

■ Reduzir o desconforto e a dor  

■ Apoiar tecidos e  melhorar a mobilidade 

■ Reduzir o edema

 

Compressão Pneumática Intermitente

O principal uso da compressão pneumática intermitente é como adjunto a outras formas de terapia de compressão para reduzir o edema. Reduz o inchaço aumentando o fluxo venoso e linfático. Às vezes usado como alternativa em pacientes com lipo-linfoedema que não querem usar terapias de compressão.

Drenagem linfática manual

A drenagem linfática manual é um tipo de massagem muito específica, mas suave, realizada por fisioterapeuta. Ocorre um estimulo dos vasos linfáticos para remover o fluido intersticial e aliviar o edema. Uma revisão das evidências da drenagem linfática manual  concluiu que reduz a dor e o desconforto e promove o funcionamento físico e psicológico.

Lipoaspiração

No geral, a lipoaspiração em pacientes com Lipedema reduz o volume de tecidos, dor e hematomas, e melhora a mobilidade, o funcionamento e a qualidade de vida. A técnica de lipoaspiração mais utilizada nos diagnósticos de lipedema é a tumescente. Nela, é injetada uma solução no tecido subcutâneo que, além de anestesiar, causa a vasoconstrição diminuindo assim o trauma vascular. Além disso, essa técnica utiliza cânulas mais finas que causam menos dano tecidual.

Cirurgia bariátrica

A cirurgia bariátrica não é em si um tratamento para Lipedema, mas como descrito anteriormente a redução de peso de áreas do corpo não afetadas pelo Lipedema ou prevenção de ganho de peso adicional em pacientes obesos pode ser benéfico.

Dr. Ronaldo Daudt. CRM-PR 29985, Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular pela SBACV. Member of Society of Vascular Surgery. Mais de 15 anos de experiência de especialidade.